Moçambique: a emergência invisível que precisa de si Moçambique: a emergência invisível que precisa de si

Moçambique: a emergência invisível que precisa de si

A violência, os ataques a civis e os fenómenos meteorológicos extremos obrigaram centenas de milhares de pessoas a fugir das suas casas. A grande maioria são mulheres, muitas delas grávidas, idosos, pessoas com deficiência e crianças. Estas pessoas necessitam urgentemente de proteção e assistência.

Moçambique enfrenta uma crise humanitária complexa e prolongada, marcada pela combinação de conflitos armados, deslocações forçadas e impactos cada vez mais severos das alterações climáticas.

Após uma redução temporária dos deslocamentos relacionados com conflitos entre junho de 2024 e junho de 2025, a violência voltou a intensificar-se no segundo semestre de 2025, provocando 339.000 novos deslocamentos associados ao conflito e à violência ao longo do ano, o número mais elevado desde 2020. No final de 2025, cerca de 465.000 pessoas permaneciam deslocadas internamente devido à violência, um valor que poderá estar subestimado devido à rápida escalada da situação no final do ano.

Moçambique continua também entre os países mais afetados pelas alterações climáticas, registando um dos maiores números de novos deslocamentos internos provocados por desastres no mundo. Em 2025, foram registados cerca de 669.000 movimentos de deslocação associados a desastres naturais, enquanto 144.000 pessoas permaneciam deslocadas devido a fenómenos climáticos extremos no final do ano.

A época ciclónica de 2024-2025 teve impactos devastadores, com vários ciclones de elevada intensidade a atingirem o país em rápida sucessão. O Ciclone Tropical Chido, no final de 2024, provocou mais de 536.000 movimentos de população; o Ciclone Dikeledi, em janeiro de 2025, causou cerca de 167.000 deslocações na província de Nampula; e o Ciclone Jude, em março de 2025, originou mais 493.000 movimentos, agravando a destruição de habitações, sistemas de água potável e infraestruturas essenciais.

A Portugal com ACNUR alerta para uma grave crise humanitária em Moçambique, onde o financiamento disponível é insuficiente para atender às necessidades críticas das populações afetadas.

Em março de 2022, o ACNUR declarou uma Emergência de Nível 2 em Moçambique e, desde então, tem reforçado as suas operações no país, apesar dos desafios relacionados com o acesso humanitário e o subfinanciamento crónico.

A incapacidade de garantir acesso seguro a muitas zonas afetadas continua a ser um dos principais obstáculos para as organizações humanitárias, dificultando a entrega de assistência vital às populações em situação de maior vulnerabilidade.

Patrício Moçambique

Violência e desastres climáticos: “Não tivemos outra escolha senão fugir pelas nossas vidas"

Patrício Mponda é um dos milhares de deslocados internos apoiados pelo ACNUR em Corrane, na província de Nampula, e um entre os milhares de pessoas que testemunharam a violência em Cabo Delgado, no norte do território moçambicano. A sua aldeia foi atacada três vezes, nas "duas primeiras vezes, fugimos para o mato e regressámos às nossas casas depois de terem saqueado tudo", começa por contar. "Durante o terceiro ataque, em julho de 2020, queimaram 70 casas, incluindo a minha, e decapitaram algumas pessoas. Não tivemos outra escolha senão fugir pelas nossas vidas". Para trás ficou a sua terra, a sua vida e uma grande dor, pelo seu sobrinho, de 22 anos, morto a tiro no segundo ataque, em abril de 2020, e pela sua filha de 24 anos que foi raptada na mesma ocasião e de quem nunca mais teve notícias.

Neste momento, o ACNUR está a mobilizar, com urgência, abrigo e outros bens essenciais para apoiar refugiados, deslocados internos e membros das comunidades de acolhimento que já apoiava e a reparar as infraestruturas danificadas nos vários campos.

ACNUR no terreno em Moçambique
Foto: © ACNUR/Isadora Zoni

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