Este é um resumo do que foi dito pelo Representante do ACNUR em Moçambique, Xavier Creach – a quem podem ser atribuídas as citações – no briefing de imprensa de 30 de janeiro no Palais des Nations, em Genebra.
Choques climáticos recorrentes estão, mais uma vez, a provocar deslocações em massa em Moçambique. Desde o início do ano, cheias severas atingiram comunidades no sul e centro do país – regiões já marcadas por outros fenómenos meteorológicos extremos, como tempestades tropicais, ciclones e secas. As mais recentes inundações deslocaram cerca de 392.000 pessoas, aumentando a pressão sobre um país que enfrenta um conflito no norte, o qual, só na segunda metade de 2025, deslocou mais de 300.000 pessoas.
Nas províncias mais afetadas, incluindo Gaza, Maputo e partes do centro de Moçambique, as águas subiram rapidamente, deixando as famílias com pouco tempo para se prepararem e forçando-as a fugir sem bens essenciais, incluindo documentos de identidade. Pais relataram fugas caóticas para zonas mais elevadas, com algumas crianças separadas das suas famílias durante a evacuação e pessoas idosas e com deficiência a terem dificuldades em acompanhar o ritmo.
Medidas preventivas e uma resposta rápida liderada pelo Governo, coordenada com parceiros humanitários e apoiada pelo setor privado, ajudaram a evitar perdas de vidas ainda maiores. Apesar de severas limitações de acesso e de condições difíceis, perto de 20.000 pessoas foram evacuadas por via aérea, fluvial e rodoviária, recorrendo a todos os meios de transporte disponíveis.
Estima-se que cerca de 100.000 pessoas estejam agora acolhidas em cerca de 100 centros temporários, incluindo escolas e edifícios públicos. A sobrelotação nestes centros é grave, agravando os riscos de proteção. Muitos locais, particularmente em zonas remotas, carecem de privacidade adequada, iluminação e serviços básicos, criando condições perigosas para os mais vulneráveis. Mulheres e raparigas enfrentam riscos acrescidos de violência baseada no género, exploração sexual e abusos. Muitas encontram-se em sofrimento e necessitam de apoio psicossocial imediato, num contexto de deslocações repetidas ligadas às grandes cheias de 2000 e 2013, enquanto os idosos e as pessoas com deficiência têm dificuldades em aceder à assistência em locais que não estão concebidos para responder às suas necessidades.
Muitas outras pessoas permanecem isoladas nas zonas mais atingidas, cortadas por estradas danificadas e terrenos inundados. Embora as chuvas mais intensas pareçam ter diminuído por agora, o acesso continua difícil, deixando famílias deslocadas isoladas e à espera de assistência. Estradas inundadas e pontes destruídas estão a dificultar o acesso humanitário e a atrasar a prestação de serviços às populações afetadas. A destruição de infraestruturas críticas, incluindo estradas, sistemas de água, escolas e unidades de saúde, está a agravar as preocupações em matéria de proteção e a interromper serviços essenciais. Escolas e instalações de saúde foram danificadas ou reconvertidas em centros de acolhimento.
Com os seus parceiros, o ACNUR – a Agência da ONU para os Refugiados – está a apoiar o Governo na prestação de assistência urgentemente necessária, em particular na província de Gaza. Equipas móveis de proteção estão a identificar e a responder aos riscos mais críticos entre as pessoas mais expostas. Estão igualmente em curso esforços para reforçar os mecanismos de prevenção e resposta, incluindo apoio em saúde mental e psicossocial. No entanto, a resposta humanitária encontra-se sob enorme pressão. Esta emergência surge somando-se às deslocações contínuas causadas pelo conflito no norte de Moçambique, que já esgotaram as reservas existentes. As dificuldades de acesso, a falta de financiamento e a enorme escala das necessidades estão a limitar a capacidade dos parceiros para estabilizar locais sobrelotados e chegar atempadamente às pessoas que precisam.
Esta crise sublinha a vulnerabilidade de Moçambique à convergência de múltiplos choques – desde conflitos a fenómenos meteorológicos extremos. Com a previsão de continuação das chuvas e os riscos de novas cheias a manterem-se elevados, são possíveis mais deslocações. O apoio internacional urgente é crucial para reforçar a assistência vital e os serviços de proteção, apoiar comunidades anfitriãs já sobrecarregadas e evitar a deterioração das condições das famílias deslocadas.
O ACNUR em Moçambique necessita de 38,2 milhões de dólares em 2026 para responder ao aumento das necessidades em todo o país e manter serviços vitais de proteção e apoio básico a refugiados, pessoas deslocadas internamente e comunidades anfitriãs.
Contactos para os media:
Relatório de Impacto 2025 do ACNUR: Resposta a Novas Emergências e Crises Prolongadas (disponível em inglês aqui), divulgado hoje.
O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Barham Salih, fala com estudantes refugiados na Escola Secundária da Big Heart Foundation, em Kakuma, Quénia.
Antigo Presidente do Iraque, Barham Salih, dirige-se à Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque,