O líder tradicional Chefe Martin Azia Sodea personifica a hospitalidade demonstrada pela comunidade de Gado-Badzéré para com os refugiados da República Centro-Africana, no leste dos Camarões.
São necessárias mais de 10 horas de viagem por estrada a partir da capital dos Camarões, Yaoundé, para chegar à aldeia de Gado-Badzéré, no extremo leste do país. À primeira vista, esta comunidade rural próxima da fronteira com a República Centro-Africana (RCA) parece pouco notável, mas, entre casas modestas e campos de terra vermelha, encontra-se um espírito verdadeiramente extraordinário de hospitalidade que transformou inúmeras vidas.
Sua Majestade Martin Azia Sodea, o atual chefe de Gado-Badzéré, nasceu na casa que ainda hoje serve de residência do chefe. O título imponente contrasta com a autoridade serena e a natureza de fala suave de um homem que tanto se sente à vontade a trabalhar nos campos de botas de borracha como a presidir a reuniões com os seus ricos trajes cerimoniais de padrões elaborados.
Em criança, o Chefe Sodea observava o seu pai resolver conflitos, acolher visitantes e trabalhar arduamente para manter a aldeia unida. Recorda uma casa cujas portas estavam sempre abertas e onde qualquer pessoa que precisasse podia encontrar um lugar à mesa para comer.
“Aqui, ensinaram-me a nunca ofender, a nunca recusar ajuda. Os nossos pais educaram-nos com humildade e abertura. Havia sempre comida para todos”, recordou o Chefe Sodea.

O Chefe Sodea preside a uma reunião de residentes locais e refugiados da aldeia de Gado-Badzéré, no leste dos Camarões. © ACNUR/Charity Nzomo
Para o chefe, os anciãos e toda a comunidade, a prioridade imediata era proteger vidas. Não se tratava de caridade ou obrigação, mas de um forte sentido de dever moral e de uma forma de honrar as suas próprias tradições.
A hospitalidade foi muito além da criação de um local para alojar famílias e da distribuição de abrigo e alimentos. Em Gado-Badzéré, significou coexistência plena. “Desde o início, nunca foi opção isolar os refugiados”, explicou o Chefe Sodea. “Decidimos que deveriam viver entre nós, circular livremente na aldeia… e que nós também poderíamos entrar no local deles sempre que quiséssemos. Sem distinções, sem barreiras.”
Em reconhecimento da profunda solidariedade demonstrada para com os refugiados por ele e pela sua comunidade, Martin Azia Sodea foi distinguido como Laureado Global do Prémio Nansen para os Refugiados do ACNUR 2025. Atribuído anualmente, este prestigiado prémio distingue pessoas que vão além do esperado para ajudar pessoas deslocadas à força ou apátridas. Para além do Laureado Global deste ano, quatro vencedores regionais serão também homenageados numa cerimónia de entrega de prémios em Genebra, a 16 de Dezembro.
Educação e saúde: símbolos de acolhimento
A escola primária onde o Chefe Sodea estudou é hoje um dos símbolos mais visíveis da inclusão de refugiados. Cerca de 65 por cento dos seus alunos são refugiados da RCA. Numa sala de aula do primeiro ano, 154 alunos partilham um espaço concebido para um terço desse número. Ainda assim, não existe distinção entre crianças locais e refugiadas – aprendem, brincam e crescem juntas.
Para Jacqueline Aissinga, professora do primeiro ano nessa escola, educar estas crianças não é apenas um trabalho, mas uma responsabilidade para com toda a comunidade. “Cabe-nos a nós dar-lhes as bases. Quando entro na sala de aula, sei que estou a construir o futuro de toda a aldeia”, explicou.
Apesar da sala sobrelotada e de outros desafios, o seu compromisso com cada criança é inabalável: “Quero ver estas crianças crescer sem armas nas mãos. Quero que tenham sucesso, que se tornem líderes e cidadãos responsáveis.”

Jacqueline Aissinga dá aulas a uma turma do primeiro ano composta por alunos locais e refugiados na Escola Primária de Gado-Badzéré. © ACNUR/Charity Nzomo
Na cantina escolar próxima, Nazira Pélaji, de 52 anos, mãe de sete filhos, cozinha ao lado de outras mulheres da aldeia. Enquanto os ovos fervem em grandes panelas ao lume, o riso enche o ar enquanto preparam o almoço dos alunos, com movimentos sincronizados e familiares. No movimento da cozinha, a distinção entre refugiadas e residentes locais evapora-se como a água a ferver nas panelas.
Nazira chegou de Bangui em 2014 e recorda vivamente os seus primeiros momentos em Gado-Badzéré: “Quando chegámos, estávamos cansados e perdidos. Mas os Camarões acolheram-nos. O governo e os chefes deram-nos um lugar para dormir, comida e cuidados. Nunca esquecerei isso”, disse.
Onze anos depois, os seus filhos cresceram aqui – alguns nasceram na aldeia. Seis ainda frequentam a escola local. A sua única ambição, diz, é dar-lhes um futuro melhor. Enquanto trabalha ao lado das outras mulheres, o seu sorriso fácil reflete uma verdade mais profunda – Gado-Badzéré já não é apenas um local de refúgio; tornou-se casa.

Funcionárias da cantina distribuem o almoço aos alunos da Escola Primária de Gado-Badzéré. © ACNUR/Charity Nzomo
A poucas centenas de metros do palácio do chefe, o centro de saúde local atende diariamente um fluxo constante de pacientes. Na sala de espera, as conversas misturam-se em sango, francês e gbaya – um reflexo da cobertura universal de saúde que beneficia camaroneses e refugiados de forma igual.
Se Gado-Badzéré é um exemplo luminoso do acolhimento dado aos refugiados, faz parte de um compromisso nacional mais amplo com a inclusão de refugiados, refletido nos compromissos assumidos pelos Camarões nos Fóruns Globais sobre Refugiados de 2019 e 2023. Esta abordagem de todo o governo visa expandir o acesso dos refugiados aos serviços sociais, reforçar a autossuficiência e promover a integração local, passando de uma resposta humanitária para uma agenda de desenvolvimento a longo prazo.
Reforçar a autossuficiência
Desde a chegada dos refugiados centro-africanos, Gado-Badzéré recebeu apoio como alimentos, abrigo e serviços de saneamento do ACNUR, de ONG e de outras organizações internacionais. No entanto, com o tempo, a ajuda humanitária diminuiu. As distribuições de alimentos – outrora regulares – tornaram-se esporádicas e insuficientes. Como resultado, o chefe e outros habitantes tiveram de encontrar formas de permitir que os refugiados se sustentassem a si próprios.
“A dignidade familiar depende da capacidade de se alimentarem”, afirmou o Chefe Sodea. “Quando a ajuda começou a diminuir, tivemos de encontrar uma solução. Disponibilizei terras para cultivarmos juntos. As colheitas – folhas de mandioca, tubérculos, milho – ajudam famílias inteiras a sobreviver.”
No total, cerca de 66 hectares foram disponibilizados aos refugiados para a agricultura. Para além de reforçar a sua autossuficiência, permitindo-lhes produzir os seus próprios alimentos e vender excedentes no mercado local para obter rendimento, esta medida também fortaleceu os laços sociais entre refugiados e comunidades de acolhimento, promovendo apoio e troca mútuos.

O Chefe Sodea (ao centro) ajuda a limpar ervas daninhas de um campo reservado para refugiados da República Centro-Africana na aldeia de Gado-Badzéré, no leste dos Camarões. © ACNUR/Charity Nzomo
O Chefe Sodea afirma que partilhar terras com os refugiados foi a decisão certa, proporcionando estabilidade a longo prazo, tal como a sua inclusão nos serviços de educação e saúde. “A terra não desaparece. Está aqui desde os nossos antepassados e permanecerá depois de nós. Então por que havemos de a guardar só para nós?”, questionou. “Sabemos que os refugiados não ficarão para sempre. Por isso, é melhor deixá-los cultivar, alimentar-se e reconstruir-se.”
A resolução pacífica de conflitos é outro pilar fundamental da abordagem de Gado-Badzéré. Para manter a coesão, um conselho semanal reúne o chefe, os anciãos e representantes dos refugiados. Juntos, abordam tensões, identificam potenciais fontes de conflito e procuram soluções imediatas para evitar a escalada.
“Criámos comités mistos. Sempre que há um problema, o chefe do setor vem ter connosco e resolvemo-lo em conjunto. Desde que os refugiados chegaram em 2014, nunca precisámos de recorrer aos tribunais”, explicou o chefe.
Despedidas agridoce
Quando alguns refugiados centro-africanos optam por regressar a casa, aproveitando a melhoria gradual da segurança no seu país, o chefe admite que o momento pode ser agridoce.
“Dói-nos. Cada vez é um verdadeiro desgosto ver partir pessoas que fizeram parte integrante da nossa comunidade durante mais de uma década”, disse.
Mas, desde que os regressos sejam voluntários e seguros, compreende o apelo do lar. “Eles já sofreram muito. Espero que regressem a uma paz verdadeira, para que nunca mais vivam atrocidades”, acrescentou.

O Chefe Martin Azia Sodea abraça um refugiado residente da aldeia de Gado-Badzéré, no leste dos Camarões. © ACNUR/Charity Nzomo
Para aqueles que permanecem, o Chefe Sodea diz ficar satisfeito ao ver a linha invisível entre “eles” e “nós” desaparecer gradualmente. “Hoje, os nossos filhos falam sango e gbaya. Vivemos juntos”, afirmou, referindo-se às duas principais línguas faladas, respectivamente, pelos refugiados da RCA e pelos seus anfitriões camaroneses.
Apesar do papel fundamental que a sua liderança e o seu exemplo desempenharam no acolhimento de dezenas de milhares de refugiados em Gado-Badzéré, o maior orgulho do Chefe Sodea é a forma como toda a comunidade se mobilizou e demonstrou o que pode ser alcançado com mentes e corações abertos.
“É motivo de grande orgulho que Gado-Badzéré seja agora conhecido em todo o mundo. Gado representa África, representa os Camarões”, concluiu. “(Acolher refugiados) não foi fácil. Não era algo que todos fossem obrigados a fazer. Mas tivemos coração para isso, e agradeço novamente ao povo de Gado por ter aceite este desafio.”
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