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As cicatrizes invisíveis na saúde mental das pessoas deslocadas à força que a Portugal com ACNUR quer apoiar

1 em cada 5

pessoas refugiadas enfrentam problemas de saúde mental

Cerca de 22%

dos adultos que experienciam contextos de deslocação forçada acabam por sofrer de perturbações de saúde mental

As pessoas deslocadas, quer seja devido a conflitos, a perseguições, vítimas de violações de direitos humanos e/ou desastres naturais, encontram-se numa posição muito vulnerável e estão expostas ao trauma e a um grande nível de stress psicológico. Na origem destas perturbações estão a separação das famílias, a xenofobia, a falta de oportunidades de subsistência, as viagens perigosas e a exposição a cenários extremos, como os de guerra.

Tratam-se de situações extremas que afetam significativamente o bem-estar e a saúde mental destas pessoas. No caso dos conflitos, por exemplo, o ACNUR revela que cerca de 22% dos adultos que experienciam estes contextos acabam por sofrer de perturbações de saúde mental. A Organização aponta também para que 1 em cada 5 pessoas refugiadas sofram de problemas de saúde mental como angústia, ansiedade, depressão, psicose e perturbação bipolar. Existem ainda casos mais complexos em que as pessoas deslocadas acabam por apresentar sintomas de stress pós-traumático ou risco de suicídio.

No caso do suicídio, as populações deslocadas apresentam à partida um maior risco, devido a todas as experiências que viveram antes da fuga, durante a mesma ou até mesmo depois, quando tentam reintegrar-se nas comunidades de acolhimento e refazer as suas vidas. As crianças e os adolescentes que nalgum momento foram expostos à violência ou que vivem em circunstâncias extremamente difíceis são quem gera maior preocupação, sendo que a violência, a negligência ou o abuso infantil aumentam o risco de suicídio numa fase posterior da vida. Por outro lado, situações de violência de género associadas à deslocação forçada constituem um dos principais fatores de risco para o suicídio em raparigas e mulheres. Também as longas estadias em exílio, muitas vezes, em condições adversas aumentam consideravelmente os riscos de problemas de saúde mental, incluindo a automutilação e o suicídio.

Programa de apoio psicossocial do ACNUR já auxiliou mais de 472 mil pessoas deslocadas

A saúde mental tornou-se, assim, uma prioridade para o ACNUR, com a Organização a apostar cada vez mais no desenvolvimento de um programa de saúde mental e apoio psicossocial que ajude estas populações a enfrentar os desafios da deslocação, a cuidar das suas famílias, garantir meios de subsistência e contribuir para as comunidades que as acolhem. Tratam-se de intervenções individuais, familiares e em grupo adaptadas às diversas necessidades de homens, mulheres, raparigas e rapazes de qualquer idade, etnia, origem e religião, bem como a pessoas com deficiência e a outros grupos marginalizados e vulneráveis da comunidade de refugiados. Só no primeiro semestre de 2022, este programa permitiu ao ACNUR prestar serviços de saúde mental e apoio psicossocial a mais de 472 mil refugiados, requerentes de asilo, respetivas famílias e cuidadores.

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Os primeiros cuidados psicológicos são essenciais nas respostas de emergência do ACNUR para uma intervenção imediata após acontecimentos altamente stressantes. ©UNHCR/Andrew McConnell

No Uganda, Paul, um refugiado congolês de 66 anos que vive no campo de refugiados Nakivale, partilha o seu testemunho:

“Há nove anos, tornei-me refugiado. Onde vivo, as pessoas dizem que sou um pai inútil, porque não consigo tomar conta de mim e da minha família. Sempre senti que não me encaixava. Isso deixou-me sem esperança e isolado. Sentia-me inútil e não via que tinha futuro”. Mas foi graças ao apoio do ACNUR que voltou a reencontrar a esperança e a força para reerguer a sua vida. “Nos grupos de socioterapia aprendi muito e fiquei sensibilizado com as diferentes experiências partilhadas e com a forma como as pessoas lutavam. Isso abriu-me os olhos e mudei. Sinto que agora sou uma pessoa melhor na minha comunidade", conta.

Para o ACNUR é crucial incluir a saúde mental e o apoio psicossocial no planeamento das respostas humanitárias e incentivar os Estados a integrarem os refugiados e as pessoas deslocadas nos serviços nacionais e nos sistemas de cuidados de saúde existentes.

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