O ACNUR ajuda as famílias a ir além da sobrevivência após os terramotos na Venezuela O ACNUR ajuda as famílias a ir além da sobrevivência após os terramotos na Venezuela

O ACNUR ajuda as famílias a ir além da sobrevivência após os terramotos na Venezuela

28 de julho, 2026

Tempo de leitura: 6 minutos

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Enquanto os venezuelanos se esforçam por reconstruir as suas vidas após os terramotos mortíferos, o ACNUR está a ajudar os sobreviventes a superar o sofrimento psicológico, as necessidades jurídicas e outras questões relacionadas com a proteção, no âmbito da resposta liderada pelo Governo.


 

A terra começou a tremer poucas horas depois de Gusmaira Rizo ter regressado a casa do hospital.

Dois dias antes, ela tinha dado à luz o seu quinto filho. A bebé, uma menina chamada Irena, tinha ficado no hospital sob observação médica. Na tarde de 24 de junho, Gusmaira recebeu finalmente alta após uma cesariana e regressou a casa para descansar com a família. Pouco depois, num início de noite quente, pouco depois das 18h, ocorreram os sismos.

Ainda a recuperar da cirurgia, ela correu com uma das suas filhas enquanto os edifícios à sua volta tremiam. Toda a família sobreviveu e reuniu-se no exterior, mas a sua recém-nascida ainda estava no hospital.

"Passámos a noite inteira angustiados porque não sabíamos o que lhe tinha acontecido", recordou Gusmaira. "O telemóvel não apanhava rede, não havia forma de saber se ela estava bem."

Por todo o estado de La Guaira, situado a norte da capital Caracas, e noutras zonas afetadas, outras pessoas viviam o seu próprio pesadelo.

Yuleima Chivico estava sentada na sala de estar a falar ao telefone com o pai quando soou o alarme e sentiu o primeiro abalo. Em poucos instantes, os espelhos estilhaçaram-se, as paredes racharam e o edifício balançou.

Ela correu para acordar o marido. Os filhos mais novos gritavam enquanto os móveis se despenhavam no chão à sua volta. A filha mais velha, que está grávida, ainda estava a olhar pela janela quando a agarraram para sair. Mas a porta do apartamento estava encravada e não conseguiram sair.

Lá fora, os vizinhos gritavam que os edifícios estavam a desmoronar-se. "A única coisa que se ouvia eram gritos", diz Yuleima. "Tudo estava a desmoronar-se." Depois veio o segundo tremor e o abalo intensificou-se.

Presos lá dentro enquanto o edifício tremia à sua volta, cada segundo parecia esticar-se até à eternidade. Por fim, conseguiram sair por uma janela.

Um a um, o marido levantou os filhos e o cão, levando-os para um local seguro. Mas quando olharam para trás, blocos de apartamentos inteiros tinham desaparecido. "Num momento tens a tua casa, a tua vida, tudo", disse Yuleima. "Trinta segundos depois, não tens nada."

© ACNUR/Diana Diaz

© ACNUR/Diana Diaz

Para milhares de famílias em toda a Venezuela, a vida dividiu-se num antes e num depois.

As casas desapareceram. As comunidades foram transformadas. As famílias passavam as noites a dormir ao ar livre, sem saber se haveria outro terramoto.

Por toda a Venezuela, os terramotos deixaram milhares de famílias deslocadas e quase 18 000 pessoas sem abrigo, de acordo com dados do Governo, transformando uma situação humanitária já difícil num desafio ainda maior. Atualmente, avaliações conjuntas da ONU e do Governo estimam que 1,3 milhões de pessoas enfrentam necessidades socioeconómicas na sequência dos terramotos.

© ACNUR/Diana Diaz

© ACNUR/Diana Diaz


Encontrar esperança e refúgio

Gusmaira, Yuleima e as suas famílias encontraram abrigo num estádio próximo, o César Nieves, onde o Governo criou um dos mais de 80 "acampamentos de transição" — locais onde os sobreviventes do terramoto podiam encontrar abrigo. Aqui, organizações humanitárias como o ACNUR, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, têm vindo a prestar proteção e outros serviços essenciais para complementar a resposta do Governo.

Muitas famílias continuam deslocadas, enquanto tentam reconstruir as suas vidas. Mas, para elas, a recuperação vai além de ter um teto sobre a cabeça.

Para Gusmaira, que regressou à Venezuela após quatro anos na Colômbia, isso inclui resolver questões de documentação que afetam um dos seus filhos, nascido no estrangeiro. Significa levar os filhos às consultas médicas, falar com psicólogos e, aos poucos, imaginar o que vem a seguir.

Em locais de acolhimento temporário como César Nieves, a recuperação começa com pequenos passos, mas essenciais, que ajudam as famílias a recuperar a estabilidade. Na qualidade de líder do Grupo Temático de Proteção, o ACNUR está a apoiar a resposta liderada pelo governo, coordenando serviços de proteção integrados através de pontos de atendimento único, em colaboração com parceiros como a UNICEF e o UNFPA. Aqui, as famílias podem aceder a assistência jurídica, apoio para recuperar documentação perdida, cuidados psicossociais, serviços de proteção infantil e encaminhamentos para apoio especializado, ajudando-as a restabelecer o acesso aos direitos e aos serviços essenciais após a catástrofe.

Para além da assistência direta, o ACNUR está também a apoiar as autoridades no reforço da recolha e gestão de informações sobre as famílias afetadas, ajudando a garantir que as pessoas com necessidades específicas sejam identificadas e encaminhadas para os serviços adequados. Ao mesmo tempo, foram mobilizadas mais de 50 toneladas métricas de artigos de ajuda humanitária — incluindo redes mosquiteiras, cobertores, conjuntos de cozinha e lâmpadas solares — com o apoio da LATAM Cargo e da UPS, para complementar os esforços de ajuda mais amplos nas comunidades afetadas.

"Ajudaram-nos com cuidados médicos, medicamentos, água e apoio psicológico", disse Gusmaira. "Estamos a lidar com a situação um dia de cada vez."

© ACNUR/Diana Diaz

© ACNUR/Diana Diaz

Há 35 anos que o ACNUR trabalha em conjunto com as comunidades e as autoridades na Venezuela, apoiando refugiados, repatriados, pessoas deslocadas e comunidades de acolhimento. Hoje, esse apoio continua em algumas das áreas mais duramente atingidas pelos terramotos, ajudando as famílias a recuperar a documentação, a aceder a serviços de proteção e a avançar mais rapidamente para soluções a longo prazo.

"A recuperação começa muito antes de uma casa ser reconstruída", afirmou Kirstin Halvorsen, representante interina do ACNUR na Venezuela. "Começa quando as pessoas conseguem aceder a apoio, restabelecer o contacto com os serviços, recuperar a documentação e voltar a imaginar um futuro. O nosso papel é ajudar as famílias a dar esses primeiros passos, reforçando simultaneamente os sistemas de proteção existentes do Governo para um impacto a longo prazo."

Para Yuleima, a recuperação começou com algo mais simples: saber que a sua família estava viva. Os primeiros dias foram marcados por ataques de pânico, incerteza e medo. Mas, com o passar do tempo, ela viu as comunidades unirem-se. A ajuda humanitária começou a chegar. Os pais cuidavam dos filhos uns dos outros. As famílias partilhavam o pouco que tinham. "Aqui começámos do zero. Mas, pouco a pouco, estamos a avançar. Agora, chamamos-nos todos vizinhos", disse ela. "Aprendemos a apoiar-nos uns nos outros."

Há duas semanas, Gusmaira não conseguia dormir, a pensar se voltaria a ver a sua filha recém-nascida. Hoje, embala o bebé nos braços enquanto observa os outros filhos a brincar nas proximidades.

Embora o futuro continue incerto e muitas famílias ainda não saibam quando regressarão a casa, por toda a Venezuela, a recuperação já está a tomar forma nas reuniões familiares, nas refeições partilhadas, nas crianças que voltam a rir e nos vizinhos que se ajudam uns aos outros.

"O mais importante é que estamos juntos e que a nossa família está completa", concluiu Gusmaira.

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